quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Santa Quitéria e Meus Dois Mil Rés



Imagem ilustrativa:

Nunca fui chegado às aventuras, entretanto assumo que tinha uma tendência a desafios, ou gostava mesmo de sofrer. Por que?  Porque acompanhava meu pai pelo mundo a fora, em busca de novidades. Era minha fascinação e loucura. Não me conformava apenas ouvi-lo contar os casos. Gostava de presenciar, sentir, ouvir e curtir in loco os fatos e as estórias dos mais velhos e dos mais sábios.
Quando percebia que meu pai estava se arrumando pra viajar, eu ficava por perto dele. De modo que ele pudesse ler meu pensamento e perguntasse se ei queria acompanhá-lo. Quando isso acontecia à resposta era positiva. E lá ia eu perguntar à mamãe se poderia ir. Ela, geralmente, dizia que era muito arriscado, mas não se opunha a tal ideia. Desta forma corria para trocar de roupa e dar início à viagem.
Meu pai, Hermes Ludugero de Farias, gostava de passear além da conta. Em uma dessas andanças fomos parar em São João do Cariri, especificamente no sítio Gravatá Mor. Depois fui ao Uruçu, terra de Alfredo Gaudêncio e Zé Agripino.
Deste modo, saímos de Serra dos Bois a cavalo. Passamos pela Cachoeira de seu Ismael. À noite, dormimos na fazenda Carro Quebrado, cuja propriedade era do sogro de Aleixo Joaquim. De manhã, bem sedo, partimos ao destino final de nossa viagem – a casa de meu avô, Ananias Idelfonso de Queiroz.
Ao nos aproximamos nos defrontávamos com um grande descampado e algumas casas. A primeira meu pai me explicou:
 - “Tonho esta casa era de tio Antonio da Costa; aquela à esquerda, de cor amarela, é de Antero, marido de Ana. Esta a nossa direita é de Seviliano e aquela de taipa é Alice, casada com Manoel Marcolino. Outra bem longe é de Ana de tio Esmerino.”.
Logo em frente, beirando um grande riacho,que parecia mais um rio, me defrontei com outra residência: uma casa feita de tijolo e cal, que chamamos de caliça. Ela pertencia  ao tio Laurindo, irmão de meu avô.
Logo à esquerda a gente começava a sentir o inebriante cheiro da flor de mofumbo. O ar, no momento de nossa chegada, era composto por um vento frio e gostoso. Além de uma temperatura amena. O Céu estava azul e com poucas nuvens. Aquelas nuvens que pareciam um véu de noiva ou da cor da roupa de primeira comunhão.
Aos poucos fui percebendo que estava perto da chegada, pois o cavalo começou a reconhecer o caminho, quando não precisava mais de ser guiado.
A primeira vista, depois de um pequeno riacho, foi à direita um grande pé de baraúna e à frente uma casa grande. Tal casa foi feita em duas  partes: uma de tijolo e outra de taipa. Meu pai foi logo me dizendo:
- Chegamos meu filho. Esta é a casa de Madrinha Ana e Padrinho Mateus.
Madrinha Ana e padrinho Mateus eram seus avós. Paramos na porta da frente e fomos recebidos por tio Chico. Tio Chico, era solteiro. Só teve uma namorada que por capricho do destino não deu em casamento. Contam que certo dia ele levava um presente para a amada,mas o cavalo tropeçou, caiu e o presente se quebrou. A namorada com raiva terminou o namoro e nunca mais meu tio arrumou outro amor. Morreu solteiro não deixou herdeiro nem bens deste mundo.
Para chegarmos à casa do meu avô, a gente subia uma ladeira, pequena, mas subia. A casa era de tijolo. Contava com uma sala, dois quartos, duas portas e janelas. Completava-a uma sala de jantar. A cozinha e um pequeno quarto de despejo.
O revezo, um cercadinho, formava uma espécie de chácara. Ali se podia ver um pé de limão galego; um de pimenta malagueta e muito avelóz. Dois barreiros e um tanque. À frente da casa a gente via um curral com mourão, sinalizando que um dia teve gado. Só a lembrança, ficou.
Partimos para o Uruçu. Fomos direto à fazenda de Alfredo Gaudêncio. Recebidos pelo seu dono, que estava numa rede e nela permaneceu. Só  se levantando na hora do almoço, quando a casa se encheu de gente. Tinha vaqueiro, amigos, trabalhadores de todo lugar, até caixeiro viajante apareceu.
Papai foi lá agradecer o favor que a família Gaudêncio prestara ao meu avô, quando ele sofrera um AVC, e levado para Serra dos Bois, de ambulância. Era uma questão de cortesia e elegância agradecer tal feito.
Após o almoço, entramos num deserto, pois não era  caminho, não era estrada nem vereda. Apenas mato. Só que de repente chegamos à casa de tia Lia. Ela quando viu meu pai, deu-lhe uma surra de carinho. Ela o batia com palmadas carinhosas e meu pai a respeitava e sorria. Um momento de muita felicidade. Embora ela já se encontrasse muito doente.
Dormimos no Uruçu. No dia seguinte retornamos para o sítio Gravatá Mor, quando conheci tio Laurindo, irmão de meu avô. Ao ser apresentado tomei-lhe à bênção. Tio Laurindo fez uma festa. Cutucou e brincou com meu pai, do  mesmo jeito que tia Lia praticara no dia anterior.
Convidou-nos para entrar. Aí ele foi ao quarto e ao voltar deu-me de presente. Uma  moeda. Moeda esta que a chamei de meus dois mil rés. Após os agradecimentos, achei por bem pedir que meu pai a guardasse, afinal era em meu pai que depositava toda confiança. Prontamente papai guardou minha riqueza.
Eu sonhava com aquela moeda poder ir a Gravatá do Ibiapina e comprar caramelo ou cocada, na banca de Antonio Paca, no mercado publico todas às sextas-feiras. Muito enganado estive.
Após uma boa conversa e um café partimos para São Domingos do Cariri. Meu pai, no entanto, pediu desculpas por ter que seguir outro destino ou rumo. Precisava passar  ma casa de seu Ananias Marcos, no Carro Quebrado. Ao chegarmos à fazenda Carro Quebrado arriamos e mais café nos foi servido e depois de outro longo assunto, partimos definitivamente para São Domingos do Cariri. Estranhei o um caminho que tomamos, mas como criança não podia opinar. Pus-me calado até o sítio Curralinho.
O desvio de rota não me assustava. Não era tão grande assim. O que importava era voltar à Serra dos Bois e sedo ou mais tarde a gente seguia o rumo certo.
Chegamos a uma casa grande, estilo chalé. Meio de taipa e meio de tijolo. Umas senhoras nos receberam e em seguida sumiram. Não sei para onde. Como a casa era muito grande não saber aonde as senhoras se esconderam.
Desmontamos, amarramos os cavalos e seu Ananias Marcos entrou, numa grande sala à esquerda da sala principal,  abriu uma gaveta enfiou um maço de dinheiro. Em seguida pegou a imagem de Santa Quitéria e a beijou. Meu pai acompanhou.
Para não fazer feio, meu pai, sem minha autorização, sacou meus dois mil rés, que tio Laurindo me dera há poucas horas e depositou-os na gaveta de Santa Quitéria.
La se foi o sonho de comprar cocada por água abaixo. Que raiva me invadiu. Quase não perdoava Santa Quitéria. Mas que culpa teve Santa Quitéria se foi meu pai que deu o dinheiro que era meu?
Aqui presto uma homenagem à Santa Quitéria e lembro-me de um dos muitos momentos que vivi na companhia de meu pai.,
Antonio Martins de Farias é Advogado e norte taquaritinguense.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A Troca dos Cachorros e o Tamanduá.




Perto de Gravatá do Ibiapina existiu um cidadão chamado Amaro Traquino. Ele criava uma vaca, uma porca, uma ovelha, uma cachorra. De cada espécie de animal ele criava uma. Era uma miniatura da Arca de Noé.
Certa ocasião sua cachorra deu cria e meu pai comprou dois filhotes de cão. Ambos nasceram de cor preta. Ficava difícil de saber quem era quem. Um era a cara do outro. Um filhote destinava-se ao Tio Nestor e o outro para nós. Em Serra dos Bois poucas casas criavam cachorro. É que muita gente temia que tais animais matassem as ovelhas e as cabras para comer. Somente lá em casa, na casa de Arnóbio e na casa de tio Abidias tinha cão, cuja finalidade era espantar as raposas e os gaviões para não comerem as galinhas e seus filhotes.
Meu irmão, metido a esperto, trocou os balaios. O cãozinho que papai escolhera para nós, foi para o balaio determinado para tio Nestor. Com o passar tos tempos o cão de tio Nestor virou um cachorro esperto, caçador, latia muito: um verdadeiro guardião da fazenda.
O cão que ficou conosco não latia nem caçava. Só comia angu. Depois que descobriu uma cachorra da fazenda Açude Novo não parava em casa. O nome dele era Leão. Só fazendo jus a tal quando estava diante de um alguidar de angu.
Para acabar com as visitas à fazenda Açude Novo, foi preciso apelar ao seu João Cazé, velho tropeiro e contador de magníficas estórias e causos. Com a mesma faca que cortava fumo de rolo, pegou o cão e o castrou. Com o passar do tempo Leão já nem se lembrada da cachorra da fazenda de seu Oliveira.
Meu irmão e eu gostávamos de caçar. Só que não tínhamos cão nem gato, pois o bichano que tinha lá em casa era muito bem tratado por dona Emília e por causa disso não saia do pé do fogão.
Foi tio Euclides, um amigo e caçador, que nos introduziu no mundo da caça. Ele possuía os seguintes cães: Possi, Jacaré e Peixinho. Peixinho perdeu-se na primeira noite que caçamos juntos na fazenda de seu Oliveira, precisamente na Serra Lavrada. Possi e Jacaré morreram de velhos, porém caçando. Estes merecem uma estatua numa praça a ser construída nas Barrocas.
Levávamos nosso Leão à mata só para passar vergonha. Ele não servia nem para enganar às Caiporas. Enfurecido com nosso cão, tio Euclides propor-nos o seguinte: quando os meus cães acuarem um tamanduá nós o pegamos e jogamos em cima de Leão, só assim ele cria coragem. Acordo feito. Acordo cumprido. Numa noite Jacaré acuou tal bicho. Quando chegamos perto nos defrontamos com um grande tamanduá. Era na serra das Gogóias. Conforme combinado jogamos o tamanduá em cima de Leão. Ele gemeu, gemeu! E vendo que ia morrer, pegou o bicho, jogou para la para car. Em poucos minutos o tamanduá estava morto. A partir desta noite Leão passou a ser um cão caçador e morreu em virtude de uma bola dada não sei por quem, para quem não sabe, a bola, é uma isca com veneno. Moral da história, Todos podem mudar para melhor, mesmo através da dor e do sofrimento. E não devemos julgar precipitadamente.
Vale reconhecer que a cachorra de Abdon era natural do sítio Gavião de Frei Miguelhinho. E foi levado à fazenda Açude Novo por intermédio de meu tio Lindolfo Ludugero, como um presente de gratidão ao amigo Abdon Pereira da Silva, um dos maiores vaqueiros da região.

Antonio Martins de Farias é Advogado e norte taquaritinguense.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Mais uma conquista da AASB





                                 

Na ultima sexta feira dia 15, aconteceu na comunidade de serra dos bois, uma audiência publica onde foram discutidos os tramites para formação da comissão de acompanhamento do processo licitatório do projeto de abastecimento de agua simplificado na comunidade. Participaram da reunião, as representantes do prorural,  Maria oliveira e Joseane Guedes, o secretário de agricultura do município Júlio Cezar Pontes além dos diretores da associação dos agricultores e vários sócios,  a comissão foi formada pelos senhores José Etevaldo de Lucena e Geraldo Francisco Barbosa Filho representando a comunidade e Júlio Cezar pontes representando o concelho de desenvolvimento rural sustentável de Taquaritinga do norte. Como sempre, o secretário Júlio Cezar, destacou a importância do projeto para a comunidade uma vez que trata-se de captação de água, esse liquido precioso e cada vez mais raro em nossa região, também colocou-se a disposição para colaborar no que for possível mostrando seu compromisso com o desenvolvimento rural, a comunidade reconhece o empenho e a dedicação do secretario, que mesmo com recursos mínimos e quase sem estrutura! vem conseguindo apoiar os agricultores do município.


Escrito por: Geraldinho.
As opiniões descritas nesta postagem, são exclusivamente de responsabilidade do autor.
 












sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Os Riachos



         Roberto Carlos já cantou O Cajueiro, com grande sucesso. Luiz Gonzaga gravou O Juazeiro, música que compõe um dos melhores acervos musicais brasileiro.
         Eu há muitos dias, ando encafifado, pois não aparece inspiração para escrever sobre Serra dos Bois. Vocês leitores, terão que me perdoar, pois já falei quase tudo sobre Serra dos Bois. De Abdon a Pedro Lino, já me ocupei. Não deixei ninguém de fora, a não ser aqueles que não me considerei apto para tal ofício. E falta muita gente, cabendo à juventude tal incumbência.
         Por mais amor que dedicasse à Serra dos Bois sabia que acabaria cometendo uma injustiça: cometi. Esqueci-me dos riachos, dos regos e dos barreiros. Quanto aos regos estes curtos como "lençol de porco" desembocam nos riachos que por sua vez levam as águas para os rios e estes para o mar. Quando outro circulo recomeça, como a vida.
         Já os riachos são cheios de histórias. Quem não se lembra de uma história que aconteceu às margens de um riacho "que jogue a primeira pedra". Era nas areias dos riachos, à sombra das quixabeiras, que nós escrevíamos o nome de nosso amor. Se não fosse o vento até hoje, constava o nome dela/dele inscrito sobre a areia. A história, o vento levou. E o amor se acabou, sem culpa do riacho, é claro, mas do tempo.
 Cada riacho tem um ou vários nomes. Cabe a cada um chamar como queira. Eu os assim denominei: o Riacho de Arnóbio, que nasce nas Areias, passa pelo açude de Aleixo Porto, pela cacimba das Trinta e Duas, esparrama-se pela Capoeira de seu Oliveira e desemboca no Riacho de Pedro Lino, que nasceu para dividir a Paraíba de Pernambuco, pelos lados do Bandeira.Tendo como destino aguar os pés de cajueiro de Aleixo Joaquim, adubar o roçado de Aleixo Chico e andar até chegar ao encontro com seu irmão:Riacho de Arnóbio.
 Uns têm caminho mais longo outros mais curtos, como é o caso do Riacho do Açudinho, que nasce no caminho da fazenda Lagoa do Canto e termina na manga de seu Oliveira.
Também o Riacho do Cercado Grande, nascido nas Lages, de tio Manoel Ludugero, passando pelas terras de Aleixo Joaquim, pelo roçado de tio Abidias, desembocando no Riacho do Açudinho cujo destino é o Riacho da Tapera, que como se sabe, nasce na manga de seu Agnelo Pedrosa e adjacências e termina em Santa Cruz do Capibaribe, quando despeja suas águas no Rio Capibaribe seguindo o caminho tão bem descrito por João Cabral de Melo Neto, em suas poesias.




Antonio Martins de Farias é Advogado e norte taquaritinguense.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Comunicado importante



                            

A diretoria da Associação dos agricultores de Serra dos Bois, através do seu presidente Adão Aragão Pontes, convida todos os sócios e a comunidade em geral, para participar da reunião preparatória e formação da comissão de acompanhamento do processo de licitação do projeto de abastecimento de água simplificado em nossa comunidade, a reunião acontecerá na  próxima sexta feira dia 16, as 09:hs e 30 minutos da manhã,  na sede da associação e contará com a presença dos gestores  do prorural UGT Caruaru, vale salientar que, os recursos já estão disponíveis na conta corrente da associação, resta apenas ser licitado para a obra ser executada. Contamos com a presença de todos, a sua presença, é de fundamental importância para o fortalecimento da associação.

Antecipadamente: A diretoria da AASB. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Uma história de Natal de quem nasceu no cariri pernambucano





Era uma tarde quente. Em Serra dos Bois, Taquaritinga do Norte, PE, o sol espalhava fogo como naquelas histórias de terror que nossos pais nos contavam para forçar a chegada do sono. O dia pareceu normal, nada de extraordinário aconteceu que chamasse a atenção de quem quer fosse. Pela manhã soltaram-se os animais para que eles fossem campear, procurando comida e abrigo. No fim do dia as cabras, as ovelhas e as vacas voltaram para seus currais, para passar mais uma noite remoendo e deixar os caroços de embu pelo chão.Os papagaios passaram pela manhã e voltaram à tarde, cantando com alegria.

Logo após o jantar Otília, iniciou uma costura. Com sua máquina de costura branca de manivela dava inícios ao vai e vem das agulhas e amarrando com linhas; fechando e abrindo, cortando e acertando detalhes que só uma boa costureira sabe fazer. No final dava em alguma peça, podendo ser para criança ou para adulto.

Ocorre que aquele dia era diferente. Ninguém falou para mim que ele não podia adoecer em dia de Natal. Mas adoeci; de repente senti uma febre, daquelas que nem chá de quina quina curava.
Quando anoiteceu já dormindo, suado e com frio, fui acordado por Bi, minha vó. Ela me vestiu com aquela roupa que acabara de fazer e ao entregar como um presente disse-me:

- Antonio, hoje é dia de Natal, dia que comemoramos o nascimento do Filho de Deus, que veio para perdoar nossos pecados.

Aquelas palavras e a roupa vermelha que me dera foi o remédio para a doença que estava sofrendo. A febre passou. Parei de suar e de sentir frio e aquela noite foi a que melhor dormi. Ficando em minha memória como o melhor Natal de minha infância.


Antonio Martins de Farias
é Advogado e norte taquaritinguense.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Vamos guardar as Coisas que não servem mais?



Em 24 de agosto de 2014, ao despertar me dei conta de que há 60 anos morria, na cidade do Rio de Janeiro, o senhor Getúlio Dorneles Vargas. Falecimento que ainda não se chegou a um denominador comum, pois uns defendem que houve suicídio e outros acham que houve assassinato, atribuamos, portanto, à história a tarefa de descobrir e explicar tal fato.
Depois do café, quando olhava as manchetes dos jornais eletrônicos me deparei com alguns depoimentos de pessoas que naquela época eram crianças ou jovens, mesmo assim lembravam-se do fato que mudou a historia da política brasileira.
De Getulio Vargas, depois de tanto tempo, guardamos a Carta Testamento, documento divulgado, cantado e vendido pelos repentistas nas feiras das pequenas cidades do interior do Nordeste. Livros, filmes, documentários e minisséries de TV formam um acervo enorme sobre o Pai dos Pobres, como era carinhosamente chamado em minha terra.
Pois bem, minha memória quando criança em Serra dos Bois, Taquaritinga do Norte, PE, guardou muitos fatos. Fatos ordinários e extraordinários, marcando, grosso modo, nossas vidas. Nossas vidas porque tudo que relatarei fez ou ainda faz parte do dia a dia de todos os moradores de Serra dos Bois e, de certa forma, ainda nos trazem muitas boas lembranças.
É certo, que os acontecimentos de Serra dos Bois não mereceram registros em papel, nem na TV e nem tão pouco em filmes ou em jornais. Mesmo assim não se pode retirar-lhe importância. Têm àqueles fatos tanta importância quanto os demais, afinal fazemos parte do mundo. Este mundo que Deus construiu tão perfeito, que até hoje não temos explicação nem a data certa do início nem do seu fim.
É truísmo afirmar que tudo que influencia nossa vida pode fazer parte da história ou estória individual de cada um. Faz. Como exemplo, temos muitos acontecimentos a relatar: a construção da igreja de nosso lugar; quando o Coronel Lucena nos incentivava, mostrando que todo o sábado deveríamos carregar pedra e fabricar tijolo. Além de comprar telhas para realçar a grandeza do empreendimento. Com trabalho comunitário a igreja foi construída e, hoje, é a referência de nosso lugar.
Serra dos Bois já pode ser considerada uma pequena vila, fato previsto há muitos anos meu tio Lindolfo Ludugero de Farias, quando em visita à Casa de Mãe Zita. E num de seus inesquecíveis diálogos ouvi:
- Antonio, cuida bem deste terreiro que um dia ele será uma cidade.
Achei que não tinha nenhum fundamento o que tio Lindolfo me dizia. Para perceber que eu estava errado, basta vê como é, hoje, minha querida Serra dos Bois.
Assim minha reflexão volta-se à memória afetiva e imaterial de diversos fatos e acontecimentos que presenciávamos ao logo do tempo em Serra dos Bois.
Bastando lembrar-se dos sinais (marcas) com os quais os moradores de Serra dos Bois marcavam ou ferravam seus animais. Antigamente cada família tinha uma marca.  O gado era marcado com a marca do dono e outra do município, que se chamava “Ribeira”. Ao pertencermos à Taquaritinga do Norte, todos os bovinos, equinos carregavam a letra “T”, além da marca do seu respectivo dono.
Já ovinos e caprinos recebiam a marca a qual chamávamos de “sinal”.
As ovelhas e cabras pertencentes à família de Joaquim Lino assinava-se como segue: “Forquilha”, “Mossa”, “Levada” e “Meio Brinco”, além do “Bico de Candeeiro”. Esses eram os mais comuns, embora existam outros conforme a família ou a região.
Sabia-se de quem era o animal pelo sinal que ele trazia em uma de suas pernas, geralmente à direita ou à esquerda. Tinha-se também a marca de seu Oliveira, fazendeiro de Surubim e dono da fazenda Açude Novo, nossa vizinha, que era uma forma de dois triângulos invertidos, bem na anca dos animais.
Assim, entregava-se ao dono o bode que se engraçava por uma cabra alheia; assim como um touro que se apaixonava por uma vaca que não pertencia à fazenda de Aleixo Joaquim o a de Pedro Lino e Sancha.
Os sinais só se complicavam quando um ladrão qualquer resolvia cortar as orelhas dos pobres animais, para confundir os seus verdadeiros donos.
Ladrões famosos, como o tão de Otaviano, de Santa Cruz do Capibaribe. Ele chegou à boca da noite e pediu rancho na casa de Arnóbio. Seu Otaviano, que se dizia mascate, fez-se amigo de todos os moradores de Serra dos Bois. Chegando a vender fiado: brilhantina, espelho e pente, entre outras miudezas, para enfeitar as moças e rapazes. Porém, certa noite de lua cheia, seu Otaviano levou todas as ovelhas de Aleixo Joaquim e de Arnóbio. Chegando a Santa Cruz as vendeu. Foi preso pelo delegado, mesmo negando o crime.
Os chocalhos formaram uma estória à parte. Certos animais carregava um no pescoço. De longe, a gente ouvia aquele som de seus badalos. Com o costume já se sabia de quem era o animal. Era a vaca de Sancha; o jumento de Pedro Lino; as vacas de Adélia; as bestas de tio Manoel Ludugero; ou as cabras dos franças.
Toda esta memória se foi.  Era uma época gostosa de ser vivida. Havia problemas, mas superamos todos, afinal estamos vivos. Triste é saber que se fôssemos procurar onde estão os chocalhos? As camas de couro? As arupemas e os moinhos de moer milho? E os pilões de pisar café? Não estão mais disponíveis estas coisas tão importantes para ajudar aos jovens na construção de suas personalidades e construir um Brasil mais justo e solidário.

Antonio Martins de Farias é Advogado e filho de Taquaritinga do Norte.